Uma sensação peculiar a atinge. Aquela do: "Ufa! Foi por um triz" ... Ela vê um furo no convés, balança a cabeça de um lado pro outro, querendo acreditar que é só uma poça.. pega um pano e tenta enxugar até que percebe que está com a água pelos tornozelos. Um sentimento de nobreza heroica descabido começa a invadir o coração e a vontade de remendar o furo é grande. Num lampejo, levada por um instinto básico e primitivo de sobrevivência, um choque de lucidez, pula, abandona o barco. Nada muito, cansa os braços, engole um pouco de água, perde o fôlego algumas vezes, mas esse esforço, esse sim vale a pena. Olha pra trás, o barco já afundou pela metade. Pode ser que ainda demore pra afundar ou que alguém consiga tapar o buraco, não importa... ela não está mais lá. O corpo dói pelo esforço de chegar em terra firme. Mas ela só consegue pensar: "Ufa! Foi por um triz..."
Hoje li um texto daqueles que me fariam apertar os olhos pra deixar escorrer uma lágrima teimosa. Li palavras que deixariam meu peito apertado e sufocado como uma quase tosse que não consegue sair. Daqueles que causam lembranças, que por sua vez, fazem a cabeça cair pro ombro e apertar o travesseiro contra o peito em um suspiro que mais parece um esgar de dor. Nada daquilo é mentira ou deixou de acontecer. Um sorriso no canto da boca, um suspiro resignado me faz lembrar que está ali, sempre esteve, ainda está e vai estar... mas não faz mais o menor sentido. Bati a poeira do sofá, travesseiro enxuto, corro os olhos novamente por aquelas palavras que já me arrancaram soluços e só consigo sorrir. Sorri porque sempre parava ali, na metade do texto, no clímax, onde tudo é intenso demais, dolorido demais, vivo demais. Parava ali, onde meu sentimento estacionava. E hoje, consegui ler até o final. Chegar no final também no sentimento, sair do clímax e ir pro desfecho. Acompanhar a cadência das palavras não só com os olhos. Aquele final, hoje também é meu. Um texto que vou ler e reler ainda muitas vezes, com o sentimento completo do clímax ao fim. Com um sorriso nos lábios por estar tudo ali fazendo parte do que vivi, mas que não faz... Ah! Não faz mais o menor sentido! (Dedicado a Stella Florence por: Carta de Desamor do livro "Os Indecentes")
Fui pedir um conselho à lua... e o que ela me disse me fechou. Vai ficar aqui guardado, D. Lua me pediu. Ela vem só de vez em quando, toda cheia, clara e forte. Vai embora, mas sei que volta.
E se volta, sei que cobra, o conselho que me deu Guarda aí dentro do peito Cala ao vento as respostas Seu vermelho incomoda, tudo aquilo que não é teu.
Ah, me deixa aqui, vai...
Me deixa aqui na minha ilusão, se é assim que chamas...
Se está aqui dentro, é onde quero ficar...
Ah, o que está por dentro é tão mais real ...
Aqui dentro o que eu enxergo ninguém mais vê.
Não me negue a beleza que só consigo enxergar daqui.
Ah, me deixa aqui, vai...
Não quero sair.
Aqui dentro consigo ouvir o suspiro que ninguém mais ouve...
É aqui também que está o sorriso que ninguém mais vê...
A palavra que escuto com os olhos...
O toque que não tem medo da pele...
A mão que não tem garras...
O abraço que não tem medo de ser...
Ah, é tanta desesperança, tanto palpite... É tanto querer que é julgado por fora do peito de onde vem... É tanta maledicência, tanta conclusão, tanta perspicácia e certeza definitiva... que não sei mais nonde me cabe em minha própria vida!
É tanta receita, é tanto clichê... É tanto "faça como fiz" e "porque comigo foi assim"... É tanto esquecimento de que eu não sou você e você não é eu...
Ah... não é fácil pulsar em vermelho perto de tudo que é cinza...
Não é fácil cantar em preto e branco enquanto o mundo ao redor quer o arco-íris saindo pelas suas oitavas...
É tanto querer cor sem abrir as tintas e molhar o pincel...
E eu ali, saudosa... reticente,
Sentada ao pé da escada que um poeta me colocou...
Tentando e querendo ainda ser boneca e atingir uma só alma...
Tentando e querendo guardar um pouco das explosões no peito trancado...
Conter os ímpetos que jorram carmesins, incessantes ...
Querendo o alento que minha voz concede a outros ouvidos...
Mas é tanta rima incerta ...
É tanta desesperança, tanto palpite...
... não sei mais nonde me cabe em minha própria vida!
( dedico a Johnny Johicerviclarik, que encontra música nas minhas reticências )
Era o acorde perfeito... a sintonia cadenciada pelo pulsar dos corações. Mesmo compasso em peitos diferentes. Alterando a dinâmica de acordo com a dança do desejo. Eram lábios ora famintos, ora suaves mordiscando-se em sabores doces.
Eram membros suados....eram braços e pernas e cabelos grudados. Eram olhos que se sorriam, que se buscavam, era o choro que se mesclava ao gemido e era seguido de um sorriso.
Eram frontes molhadas que se encostavam, eram peitos nus que se colavam em colapso e amansavam juntos silenciando em lábios grudados.
Eram dedos escorregando por cordas vivas...
Era mais de mim, era mais de nós...
Era sonho, era realidade, era expectativa, era intensidade, era gelo ou fogo, era denso... e jaz.
Foi... morreu...
Não é saudade, é luto...
Sim, é porque morreu que choro...
Se hoje eu não me preocupo mais com você, deve ser porque em algum momento, percebi que você não se preocupava comigo. Se hoje eu não te procuro mais, deve ser porque em algum momento, percebi que você não fazia isso se eu não fizesse. Se hoje você não tem mais o meu aplauso, deve ser porque em algum momento, percebi que você não sabe aplaudir quando quem faz sucesso sou eu. Se hoje não faço mais nada por você, deve ser porque em algum momento, percebi que você só estava perto enquanto precisava de algo. Se hoje não lhe estendo mais a mão quando lhe vejo cair, deve ser porque em algum momento, tentei segurar na sua e ela estava ocupada demais para dar atenção ao meu tombo. Se hoje você não tem mais os meus elogios, deve ser porque em algum momento, percebi que você é incapaz de admirar as minhas qualidades. Se hoje não estou mais ao seu lado, deve ser porque em algum momento, percebi que a minha presença ou ausência não faziam a menor diferença. E se hoje eu consigo enxergar tudo isso, deve ser porque em algum momento, percebi que ninguém pode dar aquilo que não tem.
Algumas pessoas tem vontade de gritar pro mundo inteiro ouvir. Colocar faixas com letras enormes, pendurar cartazes, gravar vídeos, fazer músicas. Armar um grande circo, um escândalo em nome do romantismo. Com megafones e microfones em punho, proclamar ao vento e publicamente aquilo que lhes transborda.
Outras ainda o fazem sem intenção, com um barulho imenso, de braços abertos e peito ofegante, arfando e em voz alta para qualquer passante.
Eu? Eu não.... eu queria apenas segurar teu rosto, olhar bem dentro dos teus olhos e dizer.... baixinho, só pra você, com música ou sem, apenas dizer...
Dói em mim e eu posso chorar... dói em mim e eu posso cantar até que o som da minha própria voz em melodia acalme as batidas violentas no meu peito. Se dói em mim, posso estender a mão e pedir a um passante que me empreste um pouco do seu calor.
Dói em mim e me rebelo até que encontre um remédio que ao menos estanque até o sangue parar de sair. De chá de ervas a abraços fraternos e colos de mãe. Dói em mim e clamo aos céus para que o alívio venha em tempo.
Dói em mim e consigo mensurar a intensidade com que me atinge cada golpe, o quanto consigo ou não revidar para me defender.
Mas não... dói fora de mim. Dói fora do meu alcance... Dói onde as minhas lágrimas não tem efeito catalisador. Dói onde meu canto não pode penetrar, balsâmico e renovador. Dói onde uma mão estendida não consegue aplacar o frio que vem da alma.
Dói onde não há defesa para golpes que não se tem ideia do tamanho e intensidade. Dói onde colos, chás de ervas e alívio dos céus não surtem efeito.
Entender de anatomia, é preciso? Decorar a geografia, sentir os relevos Na ciência do tato suavizar teus pelos Degustar o agridoce em paladar refinado.
Entender de poesia, é preciso? Sussurrar atos desconexos Cometer pecados linguísticos Descabelar teus versos
Entender de boemia, é preciso? Vagar ausente em cada sonho quente Nas ladeiras íngremes do teu baixo ventre Repousar aflita no calor latente.
Escrito em janeiro de 2011. Quando eu ainda queria entender...
Em dado momento é preciso utilizar o feitiço que aprendemos, contra o feiticeiro que nos ensinou a usá-lo. Geralmente é no momento em que a magia do mesmo se perde ou se altera de alguma forma. Poções antes encantadoras e cheias de alento para a alma. Doses genuínas de elixires saborosos, poderosos a ponto de transformar amarguras em sorrisos. Beberagens embriagadoras, alucinógenas.
Encantamento este, que findo seu prazo começa a surtir efeito contrário. Já dizia o poeta: " A mão que afaga é a mesma que apedreja" . O bálsamo que se transmuta no veneno e busca o antídoto para seu próprio efeito. Efeito este, que agora transforma sorrisos em amarguras. Alma envenenada buscando mais uma dose da mesma poção que a encantou.
A cada novo gole aspira o cheiro acre que entorpece os sentidos e impede de perceber que deixou de ser aprendiz. A poção agora é tua. Joga o feitiço e terás o teu antídoto.
Tarde de outono... eu caminho entre livros e mais livros, esquecendo do tempo, analisando títulos, capas, cheiro de livro novo, a batida da passagem de som do show de logo mais. Pessoas indo e vindo. Se esbarrando, pedindo desculpas, muitas nem se importando com o que vêem. E eu ali, igualmente absorta naquela atmosfera, sem me preocupar com o relógio (e nem sequer usando um).
Cenário comum de uma feira cultural. Entro em um stand lindo de poesia. Além de, claro, livros... camisetas, lixeiras de papelão com poesias pintadas, cadernos, peças de decoração, caixinhas.. foi a primeira vez que a vi. A voz andrógina e com aquele médio característico dos homossexuais mais afetados. As pessoas não ligam. Ela ou ele diz " Que prazer tê-los de volta esse ano". Meu primeiro sorriso sem me virar, ainda analisando um bloquinho fofo e papéis de pão com poesia de Cazuza. As pessoas não dão atenção. Me virei e "a" vi. Meu coração gelou. Sem sexo, vestida de forma feminina. Uma tentativa de executiva chique na roupa, muito magra e encurvada. Sem cabelos. Mas não eram raspados em uma atitude fashion, senti que eles caíram-lhe há pouco, ainda restavam alguns tufos em desalinho, poucos. E os drenos... fininhos, saindo do nariz e grudados à face com esparadrapo. Esperei ver uma expressão de sofrimento naquele rosto. Mas não...
Continuei caminhando e nos encontramos mais à frente. Num banco da praça, adolescentes saltitantes... e "ela" parada naquela tentativa de ter atenção. Vou passando do lado e ouço aquela figura de aparência tão caricata quanto sofrida e aquela voz média exalando uma alegria que não condizia com aquela visão:
_ Eu não queria ser mulher, eu não queria ter saúde, eu só queria ser rica!- e explode em uma gargalhada. Repete a frase para outro grupo. Passo por ela com um sorriso de canto na boca. Um sorriso que mesclava sensações no meu peito. Tristeza e compaixão por aquela pessoa tão debilitada. Simpatia pela evidente alegria de viver ( mesmo sendo nítido o quanto isso deve ser difícil). Encantamento pela simplicidade e a pureza daquele ser que estava tentando ignorar sua própria dor. Vergonha daqueles que a ignoravam e que tiveram o coração duro o suficiente para negar-lhe dois minutos do seu tempo e um sorriso dos seus lábios.
Olhei dentro daqueles olhos que destoavam da figura exangue à minha frente. Olhos vivazes e de uma pureza e bom humor incríveis. Olhei e sorri... meu sorriso de canto e cabeça baixa, virou uma amostra grátis de todos os meus dentes. Sorri para a frase célebre e lhe dei aquilo que estava buscando.
Não me custou nada. Ou melhor, custou um sorriso, um olhar, dois minutos de atenção, rir junto. Não doeu nada. Ao passar, ouvi sua voz novamente:
_ Você é linda, viu? Uma diva.....
Saí cheia de mim, colhendo aquele fruto imediato de plantar um sorriso. Saí contagiada por aquela energia. O humor melhorou na hora e o sorriso não saía mais da minha cara. A diva aqui acenou com a cabeça e sentiu o vento de outono insuflar sua saia, bater nos cabelos e a magia da troca de energia e pureza me fizeram realmente sentir uma diva.
Bobas daquelas adolescentes esnobes e de todas as pessoas da feira que ignoraram aquela criatura... que não viram que o que ela pedia era grátis, indolor e fácil de dar...só eu ganhei o prêmio!!!!
Dorme, nada disto é teu. Descansa, não vais chegar. Apenas pare e observe. Sinta como nada disso lhe pertence ou esteve contigo um dia. A qualidade do efêmero permeia tudo ao teu redor. Deixe de querer agarrar com tuas mãos e aprisionar como se fossem sólidos todos esses momentos. Pensa neles como pombos famintos. Vem, se alimentam e decolam. Respira, pois o ar também se vai. Ora, deixa que a aflição vá embora... não a segure. Não é seguro. Assegure-se de estar neste caminho que amanhã já será outro. Acampa teu peito. Monta ali uma barraca e observa. Acostuma-te às passagens. Habitua-te ao passageiro. Cessa a caminhada. Apenas senta à beira do caminho. Joga o fardo dos ombros e descansa. Descansa e dorme... Deita-te se assim o preferires... Dorme...
_Olá, D. Libido! A senhora por aqui? Há quanto tempo... Por favor, sente-se! Temos muito o que conversar. Diga-me, por onde andou? Olha... senti muito a sua falta. Sem a senhora tudo por aqui ficou mais árido, sabe? Vivia me perguntando por onde andaria, danada, que foi embora sem mais nem menos. Assim, de uma hora pra outra. Para lhe ser sincera, foi num piscar de olhos. Quando dei por mim, já sentia sua ausência. Onde foi que se meteu? Eu lhe procurei tanto! Quer um chazinho? Faço num instante, venha... Mas como eu ia dizendo D. Libido, senti muito a sua falta. Passear pela Rua dos Prazeres sem a vossa companhia me parecia algo impossível. Algumas vezes tentei, mas tudo estava insosso e volta e meia me pegava perdida em lembranças dos nossos passeios por essas paragens. Açúcar ou adoçante? Tome devagar, está quente. Sim, pelo menos o chá, não é mesmo? Vou lhe contar uma coisa... tomei muito chá frio por aqui. Foi como um inverno ameno sem cobertores. O frio até que não era tanto, o que incomodava era não ter onde me enfiar por baixo. Cada noite sem cor, sem sabor, nem cheiro. Estava quase me acostumando. Pensava eu que se a senhora estivesse feliz em outros lugares, então que assim fosse. Ora, não fique assim! Não estou lhe acusando. Pegue um biscoitinho! Teve muitas aventuras por aí? Me conte algumas. Como aquela vez em que... mas ora, veja! Não precisa ficar vermelha, foi divertido! Deixe de charme, senhora, entre nós não há segredos! Estou achando-lhe mais animada. Esse tempo fora lhe fez um bem notável. Antes de ir, estava muito quieta. Isolada no teu canto. Achei até que tinham lhe feito algum mal, sabe? Fiquei preocupada. Confesso que achei que não a veria mais. Mas eis que quando não mais a procuro, me fazes essa bela surpresa! Mais chá? Oh, estou tão animada agora que estás aqui! Temos muito o que por em dia... estou planejando alguns passeios pela Rua dos Prazeres. Vamos sozinhas mesmo, quem sabe no caminho encontramos quem nos queira acompanhar. Deve estar bonito por lá, mesmo com o vento frio que sopra agora. As folhas de outono ainda estão amareladas e ouvi dizer que essa frente fria não dura muito. Tomara mesmo, minha querida amiga, pois sinto falta do calor. Ora, vamos... deixe aí essa louça. Não precisa se incomodar com isso, a senhora tem mais o que fazer. Seja bem vinda de volta!
Por quê? Por que está tudo misturado aqui dentro? Um caleidoscópio de sons e imagens, lembranças e devaneios. Um mosaico de bocas e olhos. Um leque de cheiros e gostos ainda não desfrutados e bem conhecidos. Uma frase que costura dois momentos distintos, até guiar-se por um som que me leva até a outra margem.
O conhecido , o ausente, o que ainda virá, o que já passou, o que está passando. As ausências confundindo-se entre si e chocando-se com presenças inesperadas e igualmente ausentes.
O intruso sem razão de ser, sem ciência da intromissão. O eterno sem saber ter as terras invadidas, ignorante da perda de terreno. E a terra ressentida sem dar frutos . Terra de ninguém?
Um amontoado de pensamentos que podem sair das mais variadas formas. Não entendeu? Ah, vem comigo, explico no caminho! CONTATO: vianinhacaroll@hotmail.com